quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Flores

«Chegaram os contentores
E há que conferir os valores
Que lá dentro estão
E se serão
Adequados a esta editora
Literária que mora
Em zona urbana.»
«Se não der para esta
Dará para sua mana
Para que continue a festa.»
Os contentores são arrumados
Para serem revelados
Seus enigmáticos conteúdos
De onde saem ruídos
Que deixam confundidos
Os que desconhecem
As coisas que se encontram
Nos interiores que abanam
Talvez procurando saída
Pois certamente querem
Respirar outra vida.
«Este contentor pesa mais
Do que aquele ali.»
«É porque têm demais
Obra publicada
Noutra temporada
Conforme eu já li.»
Os contentores são abertos
E saem ainda despertos
Todos os jornalistas
Encomendados como artistas
Para futura edição
Não importando a imaginação
Se a terão ou não
Desde que produzam algo
Que se possa ler
Como: «Eu fiz algo
Para vos dar a saber.»
Os jornalistas são tantos
Que ocupam todos os cantos
Esperando sua vez
Em grupos de três.
«Vocês poderão não ter
Talento que se possa perceber
Mas isso não interessa
Pois são conhecidos
E toda a gente cai nessa
De comprar livros
Dos jornalistas referidos
Nos meios audiovisuais
Como os certos sinais
Para bem sucedidas edições
Com lucros nas intenções
Nossas, sem confusões
Em quaisquer apreciações.»
«Existem autores com criatividades
De grandes originalidades
Com floridas inspirações
Nas suas imaginações.»
«É verdade
Mas são desconhecidos.
Dá flores de criatividade
A estes bem-vindos
E vais ver como sairá
Prosa ou poesia
Que até espantará
Quem não se adia
Como super-letrado
Já antes identificado
Em qualquer lado
Por onde tenha passado.»

(de "Contentores")

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Mulheres III

Mulher observadora
Com ar de apreciadora
Daquilo que não possui
Mas que já anui
Em ter no seu desejo
Com imaginário beijo
Para selar tal posse
Antes que alguém a coce
Acordando-a sem licença
Do sonho com pertença
Que é a sua essência
De mulher em incidência
Cobiçando o que não tem
Mas que já é seu bem
Bastando-lhe olhar de fora
Para compensar a interior hora
Que sempre se acende
Pelo tempo que lhe estende
Com nada para seu desfrute
Nem prazer que a ausculte
Nas agradáveis pulsações
Cheias de belas emoções.
Por isso só lhe resta
Continuar em cobiça
Para que prossiga a festa
Onde ela se eriça
Como mulher dominadora
Frequentemente controladora
E com visão tentadora
Que não a desmotiva
A ir-se embora
Rumo a uma posição passiva
Onde não seria miradora
Da sua actual perspectiva
Que tanto se satisfaz
Com os olhos, para ser capaz
De dar firme recusa
Ao que lá dentro usa
Porque sua vontade
Apenas se acusa
Pela atraente raridade
Que do exterior se apresenta
Como a necessária novidade

(de "Mulher cobiçando")

Fantasias II

Abrira o concurso
Para poeta do reino
E um dos candidatos
Veio de longo percurso
De um outro reino
Atravessando gerações
E presenciando factos
Que conhecia de lições
Talvez escolares
Quem sabe de olhares
Pelos próprios meios
Ou interesses cheios
De curiosidades
Por longínquas entidades
E acontecimentos de importância
Que lhe deram a ânsia
De lá ir ter.
Mas não, seu ser
Queria mesmo ser
Poeta do reino
E depois de intenso treino
Sentiu-se à altura
Do enorme desafio
Que soube em memória futura
No seu presente
Com a enciclopédia à sua frente
Onde conferiu com rigor
Que tal concurso existira
No passado que sentira
Ser para o seu valor
De poeta nomeado
Pelo reino adorado
Na altura temporal
Que o recebeu com bom sinal
Mal aterrou em segurança
Com toda a confiança
De ser bem-sucedido.
De imediato, procurou o rei
Que ficou surpreendido
Ao ouvir sua história
Que lhe contou de memória
Esperando uma oportunidade
Para mostrar sua criatividade.
O rei concordou
E sem mais pensar acrescentou
O nome do viajante
Como candidato importante
Ao concurso de poeta

(de "O poeta")

Canções IV

Surgiu a notícia
Que em definido dia
Ele aqui chegaria
Para dar sua homilia
A todos os seres
Que largariam seus afazeres
Para estarem perto
Do representante certo
Da católica religião
Que a todos dava motivação
Para retribuírem com sua comparência
Em numerosa afluência.

A chegada do Papa
Que a ninguém escapava
Como essencial informação
Que urgia fazer difusão.
A chegada do Papa
Que tanto marcava
As comunidades existentes
Todas tão diferentes
Mas com devoção
Na sua religião.

(de "A chegada do Papa")

Mulheres II

Velha a colocar disco
Por sua conta e risco
Abanando sua cabeça
Em tão empenhada peça
De dar música
À juventude que fica
Pasmada com ela
A avó Manuela
Com suficiente idade
Para ter experiência
Em dar rotatividade
Aos discos para audiência
Cada vez mais numerosa
E sempre vistosa
Consoante a noite avança
E a nova geração se lança
Para a pista controlada
Pela velha resguardada
No seu posto de DJ
A ditar sua lei
E muito vibrando
Com o som que vai tocando
Em comunhão com os demais
Que fazem estranhos sinais
Abanando o capacete
Dizem eles como quem se mete
Em confusões evitáveis
Regadas com doce álcool
E amarga ressaca
Quando pedem mais tintol
Como pretensões condenáveis
E suplicando por maca
Para repousos inadiáveis
Com ela sempre fresca
A velha que muito pesca
Do nocturno ambiente
Ao qual não é indiferente
Mas mantendo fria mente
Apesar de dançar sem fim
Nem pontada no rim
Aguentando a noite toda
Dando som para a vibração
Que é geral e de coração
E que está na moda

(de "Velha DJ")

A Sereia

A gruta era fria
Mas tinha de ser atravessada
Sem que ficasse assustada
Pois ela bem queria
Chegar ao seu destino
E quando viu um sino
Não hesitou em tocá-lo
Fazendo despertá-lo
Um mocho ensonado
Que lhe perguntou
Por que razão o incomodou.
Não fora propositado
Apenas por curiosidade
Respondeu ela envergonhada
Mas muito motivada
Para dar com a entrada
No seu sonho, em busca do canto
Que só uma deusa tão bela
Poderia causar como espanto
Numa plateia só para ela
Conforme descrevia
Ao mocho que a ouvia
Com a possível atenção
Dando-lhe como informação
Que a saída
Ou entrada para nova vida
Seria lá adiante
Para onde apontava
Com o nariz confiante
De dar boa-nova que a alegrava
Sem dúvida a pairar em mocho
De tanto sono, bem roxo.

(de "IV")

Canções III

Já lá vai a altura
Em que se sonhava
Com tanta fartura
Que até se escutava
Em canção, agora trintona
Sobre o nosso Portugal
E a CEE como dona
Que nos daria o tal
Nível de vida desejado.
Mas, actualmente, a comunidade
É uma união de verdade
E pouco foi alcançado
Do tudo ambicionado.

Portugal  e a dona UE
Que apenas dá ordens em nós
Tirando nossa fé
E estrangulando nossa voz.
E não há como escapar
De tudo o que ela mandar
Como dona que é
A poderosa UE.

(de "Portugal e a dona UE")

Palavras

Por indicação do protocolo
Começa a cerimónia
Em valioso solo
Onde há gente que faz cerimónia
Inicialmente a solo
Mas depois como grupo abrangente
Pela timidez presente
Mas que rapidamente
Fica mais à vontade
Sendo até a primeira
A se posicionar como inteira
Nas vivas ao frade
Que entra de rompante
Como apressado caminhante.
E quem estava mais reservado
Deixou de fazer cerimónia
Quando se iniciou a cerimónia
Não sem antes ter tentado
Uma pausa para ter abraçado
O frade presenteado
Sem uso de parcimónia
Com elogio dedicado
Cada um a ser contado
Por aspirante a frade
Que um dia há-de
Conseguir seu intento
Assim o destino esteja atento
E ele faça por isso
Sem cerimónia nem riso
Que atrapalhe sua progressão
Na hierarquia definida
Desde que tenha aplicação
Ao longo de sua vida.
Mas por ora apenas contabiliza
Todo o pormenor que ele frisa
Ser para futura estatística
De números tão rica
Sobre o que se passa
Na cerimónia que não o maça
Mesmo quando tem de assentar
Cada bebida em taça
Que é distribuída
A quem está a passar
Pela zona atribuída
A esse efeito

(de "Cerimónia")

Fantasias

A menina saiu da janela
E arrumou a vela
Que já estava apagada
Colocando-se deitada
Num ápice quase despercebido
Pelo espelho surpreendido
Que rapidamente a chamou
Situação que ela não concordou
Por querer dormir.
Mas houve forte insistir
Do espelho em sentinela
Que pretendia o fecho da janela.
Ela levantou-se
Mas a janela fechou-se
Com a ajuda do vento
Que actuou a contento
Do espelho em alerta
Para dar à menina uma certa
Imagem dele próprio
Já sem o nocturno frio
Que ainda há pouco
O deixava quase rouco
De tosse em pressão
Sobre a sua garganta
Que já não canta
Nem sequer em ilusão
Que ele possa ter
Com a música de seu querer.
Mas quando a menina
Regressa da cortina
Que fez correr
E passa seu ser
Em frente ao espelho
Não se vê a ela
Mas sim um velho
Que está à janela.
Pergunta ao objecto
Que espelho tem tal trajecto
De fantasia chegada
A lhe ser espelhada.
Ele apenas responde
Que nada sabe
Mas o velho esconde
Sua figura antes que acabe
Por ser descoberto.

(de "A outra dimensão do espelho")

Sonhos

O sonho do fantasma
É não ter asma
Para poder haver passeio
Com extremo asseio
Na calma madrugada
Enquanto houver gente descansada
Em reconfortante dormida
Sempre bem sentida
Nem sequer suspeitando
Que há fantasma avançando
Em passos pequenos
Desde que tenha menos
Asma do que sucedia
Ontem, onde também havia
Tosse que agora não convém
Para passar despercebido
Como certo alguém
Que não é ouvido.
Ainda não é hora
De sair porta fora
Do alargado sótão
Onde o alongado fantasma
Sempre se pasma
Por tanto espaço possuir
Naquela mansão
Onde pode sorrir
E sonhar com suas diversões
Nocturnas com actuações
De inspiradas variedades
Com teatrais representações
E outras singularidades
Mas desde que não tenha tosse
Nem que lhe roce
A asma inoportuna

(de "O fantasma")

A Chegada do Papa

Mas a pomba não ficou para ver o restante do noticiário que a motivou a sair de imediato em busca de algo que a despertou para uma outra iniciativa, provavelmente estando relacionada com a chegada do Papa, ainda a ser demorada naquele calendário que era actual mas que teria de ser preparada com a devida antecedência, pelo menos na recepção que a pomba pretendia fosse uma bela atenção para com instante singular, pela importância da missão que representava a que o Papa traria ao país que iria acolher, não só o supremo representante da igreja católica, por receber como, também, toda a mensagem que ele iria trazer com sua viagem.

Esquilo-branco II

O esquilo sai de casa
Porque há uma missão
Que, com empenho, ele abraça
Com a próxima deslocação
Ao interior da floresta
Em busca de certo tesouro
Que, de outros tempos, resta
Sem que haja miradouro
Ou outra percepção
Para o ter avistado
Em momento procurado
Com curiosa investigação
Que nunca teve desenlace
Como positiva fase
De ser descoberto
Para então ser aberto.
Mas a lenda existe
E o entusiasmo persiste
Nunca abandonando
Qualquer ser caminhando
Em sua diária vivência
Enfrentando tanta ocorrência
Que, por vezes, até se esquece
De tudo o que ele oferece
Como perspectiva sonhadora
De riqueza merecedora
Bastando encontrá-lo
Como primeiro a buscá-lo
Em ser aventureiro
Com esse espírito por inteiro.
O esquilo tem hoje
Essa disposição que não foge
Garante ele a seus camaradas
Todos eles apetrechados
De víveres justificados
Para as longas caminhadas
Até ao tesouro final
Que esperam, seja real
E com enorme riqueza
Para lhes dar alegria
Com toda a certeza
De terem especial dia
Quando, mais tarde, à mesa
Tiverem farta ementa
Bastante suculenta.
Um mapa eles têm
Obtido para além
Das regras elementares
E de públicos olhares
Ao fazerem subtracção
À biblioteca de eleição
Da terra vizinha.
Quem tratou disso
Foi sua amiga galinha
Que deu eficiente sumiço
No tal mapa
Através de protectora capa
Que serviu de disfarce
Quando teve de escapar-se
Para fora do equipamento
Que alberga em comprimento
E altura como complemento
Tanto livro de histórias
E algumas memórias.

(de "O tesouro")

Esquilo-branco

O esquilo está a dar brilho
À sua branca pelugem
Quando chega a carruagem
Que lhe traz milho.
Este é descarregado
Para o espaço anexado
Que serve de armazém
Recheado de tanto bem
Para o necessário sustento
Do esquilo sempre atento
Às melhores especiarias
Que guarda das noites frias
Em acondicionado compartimento
Também protegido do vento
Na sua propriedade
Que permite um viver de qualidade.
Quando chega a hora da retirada
Da carruagem esvaziada
O esquilo vai conferir novamente
Sua encomenda agora assente
Em excelentes condições
Para suculentas refeições.
Encontra-se já no meio
Do milho bem no centro
De armazém tão cheio
Quando sente lá dentro
No anexo em questão
Um vulto com invasão
Que não deveria
Ser permitida
Porque a armazenagem estaria
Devidamente protegida.
Tal não é o caso
E o único recurso
É um pequeno vaso
Que o esquilo lança
Com reprovador discurso
Na direcção de quem avança
E por isso mesmo é acertado
Com maior pontaria
Ficando em real dança
Quase numa visível inconsciência
Que ainda é reforçada
Quando alguma da encomenda
De milho é entornada
Talvez como ajustada prenda
Para ele perder os sentidos
Debaixo de sacos estendidos
Com milho em peso
A colocá-lo como preso
Sob o olhar deliciado
Do esquilo em apetite
Pelo milho a ser provado
E sem que evite
Um sorriso bem largo
Pelo destino amargo
Do caçador sem petiscar
Imenso milho a poisar
Em cima do inconsciente
A não ter como presente
Que na mesa do herói
Tanto milho o esquilo rói.

(de "Milho")

Refrões

Leva pessoas para cima
E traz outras para baixo.
Há quem faça rima
E quem toque viola-baixo
Há quem pense
Apenas no seu pertence
No elevador de tanta história
Que fica para memória.
O elevador de tantas viagens
Que regista numerosas imagens.
O elevador com tantas mensagens
Retiradas de belas paisagens.

(de "Elevador")

Turismo

Já não tem uso
Seja qual for o fuso
De horário encontrado
Quando se está enquadrado
Ou mesmo perante
A ponte que garante
Ligação nada distante
Entre duas margens
Com belas imagens
No seu interior
Para turista que lá for
Tirar fotografia
Ou conferir a grafia
Que lá foi deixada
Por gente passada
Que nela está referenciada
A ponte que caiu em desuso
De circulação automóvel
Já há tempo demasiado
No país luso
A ser realçado
Quando se tira do móvel
Para uma melhor leitura
O livro onde se vê
A ponte quando se lê
Legenda a dar realce
A quem se descalce
Para ir à pequena praia

(de "Ponte")

Canções II

O livro já estava lido
Tendo sido bem recebido
Por tanto leitor
A fazer de cantor
Quando trauteava
As canções que mais gostava
Constantes do livro de poemas
Com diferentes temas
Apresentados como canções
Com apelativos refrões.

São estas as canções
Que nos dão as sensações
De agradáveis melodias
Para os nossos dias.
São estas as idealizações
Que nos fazem sonhar
Quando estamos a cantar
Tão belas canções.

O seu autor está identificado
E é, pelos leitores, admirado.
Chama-se Luís Amorim
E sua poesia não tem fim.
Talvez seja melhor
Acrescentar certo pormenor:
Uma corrente que o notabilize
Através dos fãs que se contabilize
Inseridos no tal amorinismo
A requerer baptismo
Com leitura de suas poesias
Mais as canções dos nossos dias
A marcarem pontos
Como poéticos contos.

(de "Canções")

Sombras

Era o primeiro dia
No castelo que havia
Para lados incertos
Com um bosque em proximidade
Mas longe de qualquer cidade
Havendo alguns bem despertos
Quando a noite aparecia
E cada fantasma, do escuro, saía
Segundo algumas lendas
Ditas como prendas
A novos habitantes
Como sucedia
Com os chegados visitantes
Em definitiva mudança
Para o castelo, com a dança
De suposto fantasma a bailar
E nele, a se passear
Com um constante riso
Como seu próprio aviso
De não tolerar
Quem o ia apoquentar.
Mas os novos vizinhos
Mesmo conhecendo
De antemão, seus caminhos
Dos fantasmas locais
Não pensaram mais
No que iam dizendo
As pessoas da região
Nem no que foram lendo
Em revistas de ocasião
Para bem ultrapassar
A fila interminável
Difícil de suportar
Com tanto automóvel a esperar
Por sua vez
Naquele turístico mês
Para uma situação agradável
Mas com aquela condicionante
Para cada visitante
Menos amável.
Mas a demora
Por aquela estrada fora
Teve seu terminar
E quando foi tempo de chegar
Tudo houve que arrumar
Antes de delicioso jantar
E posterior descansar.
E quando chegou o momento
Do esperado recolhimento
Todos subiram
Aos quartos que antes sentiram
Como sendo acolhedores
Para disfarçarem
Os naturais rigores
De Inverno no ar.

Mas as crianças
Tinham mais mudanças
Para fazerem bem
Naquele caso, olhando a quem
De noite, por ali andava:
O fantasma que dançava
Segundo lenda entendida
Como sendo estendida
Depois do badalar
Da meia-noite a pontuar
Uma melodia
Com direito a coreografia
Que a criançada já via
Bem escondida
Não fosse ser percebida
Pelo fantasma dançante
Um pouco mais adiante

(de "Sombra dançante")

O Sino

O sino começa a tocar
Talvez para anunciar
Algum falecimento
Que venha a ter seu evento
Em forma de funeral
Ali, naquele local
Uma remota aldeia
Onde muita gente se passeia
Possivelmente por ser feriado
Ou algum domingo antecipado
De ponte vestido
Por cada trabalhador recebido
Como justa compensação
Da sua diária aplicação
Na função que desempenha
À espera que venha
Seu ordenado
Sempre tão desejado
Mesmo que haja ponte nacional
A ser aplicada no local
A terra citada
Difícil de ser encontrada
Por estar escondida
Na rota percorrida
Por quem vai de viagem
Preferencialmente sem paragem
Só querendo auto-estrada
Para andar acelerada
Em extensível velocidade
De pouca responsabilidade
Não fazendo trajecto
Que permita um correcto
Conhecer do país rural
Que é tão essencial
Para o desenvolvimento
Mediante o envolvimento
Da local população
Em benefício da nação.
O sino ainda dá sinal
Com seu toque infernal
Parecendo o fim do mundo
Sem haver fundo
De alguma esperança
Numa salvação, com confiança
De ser bem sucedida
Pelo destino, cedida
A seus habitantes
Por ali constantes
Na pessimista
Perspectiva que avista
Uma senhora de idade
De nobre identidade
Na aldeia conhecida
Por sua longa vida
Sempre passada
Sem alguma maçada
Na sua terra de afeição
Onde tudo lhe saiu de feição
Com sua ajuda
A quem não estuda
Nem agora
Nem no tempo que foi embora.
Esta senhora foi a primeira
A chegar à beira
Da igreja
Onde ninguém festeja
Por se pensar
Que existe morte a pairar
Até aqui anunciada
Pela sonoridade elevada
Do sino a ser tocado
Durante um bom bocado
Mas que agora parou
Talvez porque já chamou
Demasiada gente
A estar bem presente
Para aquilatar a razão
Da sua não contenção
Do sino a alertar
Para aquele juntar
De pessoas com curiosidade
Na procura da verdade
Sobre o motivo
Provavelmente negativo
De toque agitado
Em lugar recatado
Mas onde há mortalidade.
E é esta eventualidade
Que é esperada
Por quem está plantada
À espera de novidade
Que tenha sua brevidade
Quanto antes
Em poucos instantes
Ou que, de imediato
Seja um facto
De todos conhecido
Mesmo por algum esquecido
Que não se recorde
No momento em que acorde
Do que ocorreu
No dia que morreu
Naturalmente, o anterior
Finalizado pelo prior
Em missa celebrada
Na noite encerrada
Com pequena ceia
Na católica aldeia.
Parece que não há vivalma
Com existente alma
Dentro da igreja imponente
Virada a poente
Conforme é constatado
Pelo povo representado
Por dois aldeões
Que foram em funções
De investigação
Até ao sino, sem condução
Quando esteve em badalada
Sem hora acertada

(de "O sino")

O Viajante

Outro dia, bem bonito
Tal como o anterior
E o poeta opta por outra evasão
Para o movimentado exterior
Da acolhedora pensão.
Novamente é reconhecido
Por tanta gente
Que diz, ser ele um mito
Desde tempo ido
Sem nunca ter caído
Do pedestal referente
À importância atribuída
Por toda a nação
Ali representada
Pelos caminhantes
Que, em Lisboa, são constantes
Numa vida levada
Com tarefa vencida
Nos trabalhos diários
Que até poderiam inspirar vários
Prosadores para escreverem
Imaginativos diários
Para outros lerem
De forma agradada
Na leitura aguardada
Pela sua hora natural
A do lazer essencial
Que é um direito fundamental
Para as pessoas, no seu todo
Gozarem a seu modo.
O poeta vai pensando
E um eléctrico o vai levando
Até à zona do mosteiro
Obrigatório, em qualquer roteiro
Que seja turístico
Mesmo que não seja artístico
O ofício do viajante.

(de "II")

Paz

Com tanto desenvolvimento
Na vertente industrial
Que já tem um cento
Desde seu ponto inicial
Talvez uns anos mais
Com precisão factual
Nunca é demais
Apontar o que tem corrido
Pior, por tantos locais
Com prejuízo recebido
Por tanto ser vivo
Que não tem conseguido
Recuperar seu porte activo
Pela imensa poluição
Que o tem posto cativo
Com fome na sua alimentação
E de doenças respiratórias
Ou com outra identificação
Que têm originado histórias
No mercado editorial
Ou nas imprensas obrigatórias
Com seu informar actual
Mostrando tanta criatura
Não apenas a vegetal
Mas também a animal que, atura
Poluição extensa em seu território
Por vezes com cobertura
Sobre o seu dormitório
De crude ou outro poluir
Com algum uso acessório
Que até chega a cobrir
O próprio animal, intrigado
Em todo o seu sentir
Sobre o que sucede a seu lado
Porque tanta área plantada
Tem seu conteúdo contaminado.

(de "VIII")

Músicas

Conversamos em português
Como poderíamos utilizar
O universal inglês.
Talvez nalgum espanhol
Nos entendêssemos bem
A partilhar o mesmo sol
Que nos abençoa, também.
O principal é o nosso gostar
Independentemente do falar
Onde comunicamos sem parar.
O francês também é opção
Pois tu és de região
Onde se fala com tal romantismo
O francês de baptismo
De uma romântica língua, em escuta
Por ser na Suíça que te descobri
E de imediato percebi
Seres mulher tão leal
E verdadeiramente especial.
A tua constante luta
É pela beleza no dançar
Para plateias, onde o teu encantar
Tem sempre muito por admirar.

(de "Dialectos de ternura")

Almas

Quando chega ao paraíso
Seu Anfitrião é preciso
Nas palavras usadas:
«Pretenderá o chegado visitante
Ir até ao reino das fadas
Ou ficar sitiante
Um pouco mais adiante
Por haver sido pecador
Sem qualquer pudor
Durante sua vida terrestre
Em local com gravura rupestre?»
Pergunta o denominado Mestre.
O visitante dá sua garantia
De que jamais pecou
Em qualquer dia
Na vida que durou
Mais do que ele esperava.
Agora, só aguardava
Pela sua futura localização
No reino celestial
Presentemente à disposição
Do Mestre especial
Que tomará sua decisão
Com toda a razão
E sem qualquer discussão
Da parte de quem cumpriu
Todos os mandamentos
Pois nunca os fingiu
Em seus diários andamentos.

O Mestre vai conferir
Se tal é mesmo verdade
Através da ficha retirada
Com todas as ocorrência
Em qualquer idade
Durante o seu existir
Na vida passada
Lá em baixo, com incidências
Por todos os lados
Que são considerados
Na final avaliação
Que já está na mão
Do Mestre, como um relatório
Que transmitirá o reportório
Da alma à sua frente
Quando estava em mundo diferente
Do que se encontra aqui assente
E será obrigatório
Para verificar se é meritório
Entregar-lhe o bilhete de acesso
Ao reino das fadas, num ingresso
Por muitos, tão desejado
Mas, para outros, bem vedado
Por antes haverem pecado.

(de "O bilhete")

Tele-visões

Ao ligar a televisão
A infeliz programação
É sempre igual
E completamente banal.
Tanta hora de repetição
E atrasos sem explicação.

A espectadora de ocasião
É bastante exigente
Mais ainda, quando é disponibilizado
Todo aquele conteúdo, como uma extensão
Do serviço público acordado
Em termos políticos, no recente
Programa de governo aprovado
No seu local apropriado.

Muita contra-programação
Para fazer sua concorrência
Aos canais privados.
Estes têm outra concepção
Talvez com pouca coerência.
Não adianta enviar recados
Com protestos irados
Pois serão todos apagados
Não estando eles preocupados
Com sua própria assistência.

A espectadora não aguenta mais
E resolve usar de iniciativa
Que não pode ser mais activa:
Parte o televisor à primeira tentativa
E salta lá para dentro
Ficando mesmo no centro
Do programa a decorrer.
Fica tudo sem perceber
O que está ela a fazer.
Não havia editais
Que anunciassem uma aparição
Com total surpresa
A meio do espectáculo
Que já tinha seu guião
E não soube fazer alteração
Nem explicar com clareza
A seus espectadores
E figurantes de ocupação
Como vai contornar o obstáculo
Sem chamar os censores.
Um deles já chegou
Mas agora é tarde
E a espectadora nem foi cobarde
Quando dali saiu
Apenas continuou sua missão
Conforme tinha planeado.

(de "Espectadora exigente")

Campeões

O jovem escocês, com grande potencial
Para, no futuro, poder ascender
À categoria de estrela mundial
No firmamento do automobilismo
Iniciara-se há poucas corridas
Atrás, no seu breve viver
Em termos de competição
Mas, já com todo o desportivismo
Que iria pautar sua carreira
Tão admirada pela assistência
E também por pessoas nascidas
Depois da sua envolvência
No desporto, ter finalizado.
Mas, naquela altura, ele estava encontrado
E, definitivamente, encarado
Como o próximo piloto de referência.
Aos Grandes Prémios deu preferência
Para, com os restantes, dar a sua lição.

(de "O professor")

Lendas

Era uma vez um castelo
Que ficava numa serra.
Os mouros dominavam a região
Sob o comando de Abakir
Que tinha fama de conquistador
De mulheres e muita terra.
Conseguia tudo o que queria
Sem que alguém ousasse resistir
Mesmo que houvesse duelo
Ali, nas redondezas
Do castelo, um dos mais ricos
Que no mundo existia
Era o que se dizia
Como definitivas certezas.
Abakir era de muitos namoricos
Mas um dia, quando regressava
Após mais uma batalha bem sucedida
Viu uma linda pastora
Por quem se apaixonou imediatamente.
No dia seguinte, habituado que estava
A que nada nem ninguém lhe resistisse
O rei mouro mandou que a trouxessem
E, com brevidade, a pusessem
Perante sua presença observadora
Com vontade tão exigente.
Assim, à pastora, apenas disse
Que ficasse ali a morar
Com ele, para o resto da vida.

(de "A pastora")

Mulheres

Ela apareceu junto ao mar
Em zona de grandes rochedos
Que ali chegaram por acaso
Há já muito pulsar
Do tempo que os estendeu em penedos
Ali, sempre a envolver o ocaso
De todo o entardecer
Que a recebeu com prazer.

A sua simpatia foi cativante
E, de imediato, um agradável
Cartão de visita importante
Da sua personalidade afável
Com alguma timidez reinante
Em tão luminosa elegância
Adornada em sorriso revelador
Da tal reserva compensada
No distinto traje cativador
Que a sua prudente distância
Não deixou ofuscada.
A sua conversa foi fluida
E com a transparência
Das pessoas de bem
Com uma suave envolvência
Da sua voz quente
Num tom que contém
Sensação de um embalar presente
Quando pode ser ouvida
No momento agora recordado
Bem como no subsequente
E nos demais que o poeta sente
Como um tesouro guardado
Pelo qual se fica ausente
Da realidade a ser constituída
Como a acessória, porque a principal
A ter visualização essencial
É, de todas, a mais especial

(de "Rapariga minhota")

Canções

A mais bela flor
Que é possível conhecer
Em qualquer jardim do interior
Deste mundo, no viver
De um modo tão real
Ou em sonhos a condizer
Consegue reflectir o brilho ideal
De quem possui beleza
Tão deslumbrante e especial
Por ser única, na certeza
De não haver outra equivalente.
Contudo, é enorme a tristeza
No constatar da distância presente
E, talvez mesmo, inultrapassável
Pois, se estivesse assente
Que proximidade tão agradável
Fosse uma aprazível evidência
Com continuidade realmente estável
Toda a sua formosa aparência
Sairia ainda mais realçada.
Esta manter-se-ia com igual frequência
Pela flor tão contemplada
Caso a sua personalidade
Seja bela como a observada
Em toda a expressividade
De um rosto, sem dúvida, singular
Que revela uma afectuosidade
Impossível de não figurar
No grupo de virtudes marcante
Para a flor que está a destacar.
E a cada novo instante
Que o tempo vai concedendo
Daquele rosto tão cativante
Vai-se, simplesmente, percebendo
Que aquela equivalência referida
Com a beleza interior em crescendo
É uma realidade aferida.

(de "Flor de sonho")

Beatriz

Há pouco tempo, teve início a viagem
Com forte convicção num destino actuante,
Pela possibilidade dele revelar a paisagem
Que o trajecto vai conhecer a cada instante,
Percorrido em busca de uma certa imagem
Que caracteriza o pensamento de modo constante,
Na procura de um desejo fundamental
Para levar esta jornada até ao seu final.

Deste modo, é com grande motivação
Que aquela arranca com a marcante presença
De um optimismo, cuja actual pretensão
É levá-lo intacto nesta jornada tão extensa,
Pois é esta a indicação da sua própria sensação,
Suportada pela convicção que invade tal crença
Para manter aquele estado de alma
Que, por enquanto, lhe transmite toda a calma.

(de "A Viagem")